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Onde está Meca em BH?

on 16 dez, 2015 in Dossiê: Credos, Dossiês | 0 comments

Uma garota muçulmana que encontra Meca e espaço para sua religião na capital mineira.

 

Imane El Khal é uma belo-horizontina de 17 anos. “Significa fé”, ela diz sobre o nome. Seus pais, marroquinos, chegaram à cidade cerca de 21 anos atrás. A garota é filha de Mokhtar, que se formou em teologia na Arábia Saudita e atualmente é sheik da única mesquita de Minas Gerais. É lá também que Imane reside com o pai, a mãe Nadjia e os irmãos mais velhos Assmaa e Ossama.

A poucos metros da Praça do Papa, na Rua João Camilo de Oliveira Torres, número 20, bairro Mangabeiras, a mesquita recebe adeptos e visitantes às sextas-feiras – dia considerado sagrado na religião islâmica.

A poucos metros da Praça do Papa, na Rua João Camilo de Oliveira Torres, número 20, bairro Mangabeiras, a mesquita recebe adeptos e visitantes às sextas-feiras – dia considerado sagrado na religião islâmica.

Apesar de ter crescido em uma família muçulmana, Imane se converteu ao Islamismo aos 14 anos. “Foi quando eu comecei a fazer as orações certinho”. Por certinho ela quer dizer: cinco vezes ao dia e sempre direcionada à Meca, onde está a Caaba. “É como se a gente estivesse literalmente em frente a Deus.”

A oração é um pilar fundamental do Islamismo. “É a coisa mais importante na nossa fé”, ela constata. As cinco orações são distribuídas ao longo do dia. A primeira é feita antes do nascer do sol. A seguinte, mais ou menos ao meio-dia. Outra, no meio da tarde. A quarta é realizada depois do pôr do sol. E a última, à noite.

“A gente tem que fazer as orações nos horários, tem que ter essa disciplina. Quem trabalha o dia inteiro tem que pedir para o chefe para ter cinco minutinhos para orar.” Mas, ainda segundo Imane, quem não conseguir cumprir esse cronograma pode, excepcionalmente, juntar duas orações e fazê-las o quanto antes.

Quando estava na escola, Imane não tinha problemas com horários. Acordava no fim da madrugada e rezava antes de sair de casa. As aulas ocorriam no período da manhã, então a oração de meio-dia poderia ser feita quando voltasse da escola.

À época, Imane não tinha o hijab, vestuário usado por mulheres muçulmanas, como parte de sua vida cotidiana. Mas não por falta de tentativa. Ela chegou a usar o véu no primeiro dia de aula do primeiro ano do Ensino Médio, quando ouviu um colega de sala gritar-lhe: “Terrorista!”. O episódio fez com que a garota desistisse de usar o hijab até se formar, o que aconteceu no final do ano passado.

Para Imane, o hijab virou rotina desde o primeiro dia de janeiro de 2015, agora sem receio do estranhamento alheio.

Para a jovem muçulmana, o hijab virou rotina desde o primeiro dia de janeiro de 2015, agora sem receio do estranhamento alheio.

Neste ano, Imane concluiu um curso pré-vestibular pela internet e prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O resultado da prova sai em janeiro, e ela espera conseguir uma vaga em Arquitetura na UFMG. Além disso, sua mãe, Nadjia, dará aulas de árabe na universidade.

Em todas as orações, o fiel deve recitar o primeiro capítulo do Alcorão, em árabe, e outro trecho do livro de sua preferência:

 

A jovem muçulmana aprendeu o árabe com os pais. É uma forma que eles encontraram de manter os filhos em contato com sua cultura. Dentro de casa o “se Deus quiser” se transforma em “InshAllah”. “Graças Deus” dá lugar a “Alhamdulilah” e quando alguém vê algo bonito diz “Masha’Allah”.

A língua não é a única variante da cultura árabe que tem lugar na casa da família El Khal. A mãe prepara pratos como o conhecido cuscuz e a maqluba, basicamente “um risoto que pode levar batata, berinjela e outros legumes”, Imane explica.

Para os ouvidos, Imane reserva também um gosto particular por artistas muçulmanos. Ela conta que nasheeds é o nome dado às “músicas islâmicas com boas morais”. No tempo livre, o pop do inglês Harris J e do libanês Maher Zain se reveza com o hip hop de Deen Squad, dupla canadense famosa por fazer releituras de grandes sucessos acrescentando à letra referências islâmicas.

Na espera pelo resultado do vestibular, Imane gosta de sair para comer e conversar com amigas. “Se tenho um compromisso e não tem onde fazer a oração, eu vou num provador de alguma loja e pergunto para as vendedoras se eu posso fazer uma oração rapidinho”, ela explica. Imane também carrega consigo um tapetinho, já que a oração requer uma superfície limpa.

Mas além da preocupação com local e horários, Imane, assim como todos os muçulmanos, deve orar seguindo a qibla, a direção de Meca. Para se orientar, Imane costuma utilizar um aplicativo de celular, que não só indica a direção correta como também notifica os usuários com lembretes nos horários das orações.

O pai de Imane seguiu a filha e se rendeu às facilidades dos smartphones. No entanto, alguns meios de orientação mais tradicionais ainda são preferidos. A mãe da garota, por exemplo, prefere a bússola. Há ainda quem utilize o sol como referencial. Os métodos variam, mas o objetivo é um: determinar a qibla em qualquer lugar do mundo.

Imane realiza a maioria de suas orações na mesquita, que é também sua casa. As linhas vermelhas demarcam a qibla.

Imane realiza a maioria de suas orações na mesquita, que é também sua casa. As linhas vermelhas demarcam a qibla.

 

Onde é que está?

 

Não só Imane e sua família, mas todo muçulmano que mora na capital mineira já deve ter se perguntado: Afinal, onde está Meca em BH? Fomos atrás de algumas respostas.

Do coreto da Praça da Liberdade, a qibla estará entre o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e a Secretaria de Estado de Obras Públicas.
Para encontrar a qibla na Praça da Estação, basta tomar a direção do Museu de Artes e Ofícios.
O vão entre a Avenida Amazonas e o Cine Theatro Brasil Vallourec determina a qibla na Praça Sete.
Na Praça de Serviços do Campus Pampulha, a qibla estará entre a Faculdade de Ciências Econômicas (Face) e a Avenida Reitor Mendes Pimentel.
Na Lagoa da Pampulha, tomando a Igreja Francisco de Assis como referencial, a qibla estará apontada para a pequena praça pintada de branco.

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Entenda melhor

 

Os cinco pilares da religião islâmica são: o testemunho de fé, a oração, a caridade (zakat), o jejum no Ramadã (nono mês do calendário islâmico) e a peregrinação à Meca (hajj).

A oração é o momento em que o muçulmano conversa com Deus e faz pedidos e agradecimentos a Ele. As cinco orações diárias obrigatórias são chamadas de salat. Antes de cada uma delas, os muçulmanos fazem a ablução. Trata-se de uma purificação física e espiritual em que o rosto, as orelhas, o cabelo, os braços, as mãos e os pés são limpos com água. Enquanto fazem uma salat, os fiéis variam suas posições: ficam em pé, encurvados (com as mãos sobre os joelhos flexionados), prostrados (com a testa sobre o chão) ou sentados sobre as pernas, com a cabeça baixa. Esses movimentos são os rakahs, geralmente executados duas ou quatro vezes em cada oração. Existem também as orações voluntárias, realizadas em qualquer momento do dia. Elas podem ser súplicas (du’á) ou feitas como adoração. Os muçulmanos oram tanto individualmente quanto em congregação, ocasião em que se reúnem em um templo para rezarem juntos.

Caaba é o santuário em formato de cubo localizado no pátio da mesquita de Al-Haram, em Meca. Em uma de suas paredes, fica a Pedra Negra, que os islâmicos acreditam ter sido branca e entregue a Adão depois de expulso do Paraíso, para que seus pecados fossem perdoados. A Pedra ficou preta depois de absorver os pecados dos peregrinos. Segundo a tradição islâmica, a Caaba foi construída por Abraão e seu filho Ismael. Em 630, o profeta Muhammad conquistou Meca, e destruiu os ídolos pagãos nela existentes. Desde então, ela se tornou o foco das devoções dos muçulmanos. Um dos rituais da peregrinação à Meca consiste em circungirar sete vezes ao redor da Caaba.

 

Júlia Valadares

Minha Meca está a 82 quilômetros de BH: em Itaúna, minha cidade natal. Aliás, seu nome é um termo em tupi que significa pedra negra.

Kaio H Silva

Se me vir apontando dedo por aí, é Meca.

 

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