Espaços de convivência, iniciativas culturais e relações coletivas revelam como a comunidade acadêmica constrói práticas de bem viver no cotidiano da UFMG.
Repórteres: Ana Luisa Lopes e Izadora Felix
Em meio à rotina marcada por aulas, pesquisas e prazos, diferentes iniciativas espalhadas pela UFMG têm transformado o campus em um espaço de convivência, cuidado e construção coletiva. No Instituto de Geociências (IGC), por exemplo, a ausência de uma cantina após a retomada das atividades presenciais motivou estudantes do Diretório Acadêmico William Rosa (DAIGC) e integrantes do Projeto de Extensão AUÊ!, responsável pelo Horto do instituto, a criarem uma Feira de Alimentação em agosto de 2025. Essa proposta vai além de suprir uma demanda por comida, ela reúne produtores independentes e busca estimular reflexões sobre alimentação, sustentabilidade e vida em comunidade.

A experiência do IGC é uma das diversas iniciativas que revelam práticas de Bem Viver dentro da universidade. Inspirada em uma filosofia presente nos modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais, essa perspectiva propõe relações baseadas na coletividade, no cuidado e na conexão com a natureza. Entre hortas, feiras, jardins, espaços culturais e encontros promovidos pela comunidade acadêmica, a UFMG se torna cenário de experiências que vão além da formação profissional e apontam para outras formas de viver e compartilhar o cotidiano universitário.
O que é o Bem Viver?
A expressão quíchua Sumak Kawsay, traduzida como “Bem Viver”, representa uma forma de compreender a relação entre os seres humanos e a natureza baseada na interdependência e no equilíbrio. O líder indígena e ambientalista Ailton Krenak define o conceito como um modo de existir no mundo em que a vida humana está conectada à de todos os outros seres que compartilham a Terra. Para ele, o Bem Viver consiste em buscar um equilíbrio entre aquilo que se retira da natureza e o que é devolvido a ela, em uma relação de reciprocidade e cuidado.
Para além de uma teoria, o Bem Viver é uma filosofia presente nas cosmologias dos povos originários e em comunidades tradicionais, como quilombolas, ribeirinhos e caiçaras. O economista equatoriano Alberto Acosta aponta que essa visão parte do entendimento de que os seres humanos não estão separados da natureza, mas são parte dela — viver bem significa aprender a conviver com os demais seres vivos e reconhecer a importância de preservar os ecossistemas dos quais depende a própria existência humana.
Essa filosofia se sustenta em princípios que orientam uma forma de existência alternativa ao modelo hegemônico de desenvolvimento: a natureza é reconhecida como sujeito de direitos, a coletividade e a vida comunitária são valorizadas em oposição ao individualismo, e a sustentabilidade torna-se condição essencial para a continuidade da vida. Além disso, o Bem Viver carrega a preocupação com a transmissão dos saberes tradicionais — como afirma a escritora indígena Francy Baniwa, no documentário “Do Colo da Terra”, “O Bem Viver é você ver o território preservado e tendo esses conhecimentos vivos, presentes no cotidiano”.
A proposta também se distancia da ideia convencional de bem-estar, geralmente associada ao consumo e ao uso dos recursos naturais em benefício exclusivo das pessoas. Ao propor uma relação mais harmônica entre comunidade, território e natureza, o conceito do Bem Viver se apresenta como uma alternativa aos modelos de desenvolvimento centrados apenas no crescimento econômico, defendendo formas de existência pautadas pela coletividade, pela diversidade e pelo respeito à vida.
O que já existe na UFMG
A iniciativa da Feira de Alimentação do IGC não nasceu do nada. Ela é fruto de um trabalho mais antigo. O AUÊ! – Grupo de Estudos em Agricultura Urbana da UFMG – foi criado em 2013 por estudantes e professores interessados em repensar a relação entre cidade, alimentação e sustentabilidade. Desde então, o grupo tem se dedicado a estudar e promover práticas de agroecologia urbana, abordando temas como organização popular, conflitos socioambientais e segurança alimentar e nutricional.

O Horto do IGC, mantido em colaboração com os estudantes, é uma das faces visíveis desse trabalho. O espaço é dividido de modo que seus cultivos sejam facilmente identificados a partir do órgão do corpo humano que eles beneficiam. O orégano, por exemplo, está plantado na seção do baço/pâncreas, visto que tem ação antioxidante e pode ajudar na prevenção do câncer de pâncreas. O horto também é utilizado para a realização de atividades coletivas e rodas de conversa.
Segundo uma publicação do Diretório Acadêmico do Instituto de Geociências (IGC) nas redes sociais, a criação da Feira de Alimentação foi apresentada como uma alternativa à ausência de uma cantina tradicional no prédio. Na ocasião, o DA destacou que o espaço “não é uma cantina da forma que conhecemos na UFMG normalmente, mas cumprirá um grande papel na alimentação e no estudo”. A entidade também afirmou que a iniciativa surgiu diante das limitações do atual modelo de licitações, que, segundo a publicação, tem deixado diferentes unidades da universidade sem serviço regular de alimentação em razão de empresas que priorizam o lucro em detrimento da garantia de acesso à comida no ambiente acadêmico.
Além dos espaços existentes no Instituto de Geociências (IGC), a Praça de Serviços da UFMG se destaca como um ponto de encontro que reúne estudantes, servidores e visitantes em torno de práticas de convivência e bem-estar. Entre as atividades promovidas no local está o PicadeRró, tradicional roda de forró realizada às quartas-feiras, às 17h30. Aberta à comunidade acadêmica, a iniciativa transforma a praça em um espaço de lazer e socialização, proporcionando momentos de descontração, dança e troca entre os participantes, em contraste com a rotina das salas de aula.
Escondido atrás da Faculdade de Educação (FaE) da UFMG, o Jardim Mandala se consolidou como um espaço de convivência e Bem Viver dentro do Campus Pampulha. Idealizado pelo artista visual Wellington Dias, o jardim reúne elementos das culturas indígena, afro-brasileira e do Feng Shui, combinando saberes tradicionais, espiritualidade e contato com a natureza. Com mais de 130 espécies de plantas medicinais e aromáticas, bancos, esculturas e ambientes destinados ao descanso e à contemplação, o local oferece aos estudantes uma alternativa à rotina intensa da universidade. Para além de ser um espaço de lazer, o Jardim Mandala também promove práticas de cuidado, conexão com a natureza e valorização dos conhecimentos populares, favorecendo experiências de bem-estar, convivência e aprendizagem em um ambiente acolhedor e humanizado.
Ademais, a UFMG também abriga iniciativas que promovem o intercâmbio cultural e a formação cidadã. Criado em 2013 por meio de uma parceria entre a UFMG e a Huazhong University of Science and Technology (HUST), da China, o Instituto Confúcio da UFMG oferece cursos de mandarim, exames de proficiência e diversas atividades culturais abertas à comunidade. Ao longo de mais de uma década de atuação, o instituto tem se consolidado como um espaço de aproximação entre Brasil e China, promovendo eventos, oficinas e experiências que ampliam o contato com diferentes saberes e culturas. Dessa forma, ele contribui para práticas de bem viver ao incentivar a convivência, a diversidade cultural e a construção de relações pautadas no diálogo e no aprendizado coletivo.
Como o estudante de comunidade tradicional percebe o Bem Viver na UFMG?
Para compreender se a filosofia do Bem Viver se manifesta dentro da universidade, a reportagem ouviu Isaac, estudante quilombola da UFMG. Sua fala revela contrastes profundos entre a vida na comunidade de origem e a experiência no campus.
“No meu quilombo, eu sinto que o Bem Viver está dentro daquilo que é partilhado”, conta Isaac. “É de costume plantar muito, ter muita horta, então o grande luxo é ter muita fartura, então é distribuído.” Ele descreve uma dinâmica comunitária em que as pessoas resolvem as coisas juntas: “A minha mãe, por exemplo, que é liderança da comunidade, sempre que tem qualquer problema as pessoas vêm a nós e nos juntamos com a comunidade e resolvemos as coisas.”

Essa lógica comunitária, no entanto, não se repete com a mesma intensidade dentro da UFMG. Isaac sente falta de um senso de coletividade: “As pessoas geralmente se mobilizam muito para resolver questões internas daqui ou de várias causas diferentes. Mas eu sinto que falta um pouco de senso comunitário quando a gente fala de interações sociais”. Ele contrasta com a experiência no quilombo, onde “tudo está voltado para o que é partilhado e comum a todos”.
Apesar dessa falta, Isaac enxerga práticas de Bem Viver dentro da UFMG, especialmente no incentivo de jovens e professores ao contato com a terra e os costumes tradicionais. “Sinto que eles estão sempre tentando incentivar de alguma forma a ter contato com a terra, os costumes tradicionais”, afirma. “Muito sobre o que eu falei do comunitário existe, mas tem um certo desfalque. Existem grupos, as pessoas se ajudam, trabalham juntas, sinto que está bem presente na universidade.”
Apesar disso, Isaac enxerga práticas de Bem Viver na universidade, especialmente no incentivo de jovens e professores ao contato com a terra e os costumes tradicionais. Ele cita mobilizações em torno de causas e a organização coletiva, mas faz uma ressalva: “Ao mesmo tempo, eu sinto que muitos conjuntos ainda estão individualizados.” Ele exemplifica com disputas políticas no DCE - Diretório Central de Estudantes, onde grupos apresentam propostas semelhantes, mas atuam como rivais. “Quando eu falo da minha comunidade, tudo é resolvido em comunitário, então todas as pessoas ali estão em prol de algo, em busca de um objetivo. Sinto que falta isso aqui” afirma.
O choque cultural, para Isaac, foi intenso. Há dois anos morando em Belo Horizonte, ele descreve o sentimento de deslocamento: “Eu não conheço ninguém, não tenho familiarização nenhuma com a terra. Tudo é muito diferente: a comida, o modo de falar, as pessoas, a terra, até o ar aqui é diferente.” Ele completa: “Eu sinto que eu não faço parte de algo igual eu sempre senti no meu quilombo, e não tem praticamente nada do que tem lá.”
Sobre a presença de práticas de comunidades tradicionais dentro da universidade, Isaac é direto: “Acho que a única coisa que eu vi durante o meu tempo aqui foi o pessoal que faz o horto no IGC, mas mesmo assim está um pouquinho largado. Tanto que eu não conheço nenhum outro quilombola aqui dentro. Nunca participei de nenhum tipo de manifestação ou expressão aqui dentro, só sei do horto mesmo.”
O que falta para o Bem Viver?
Para a professora Fabiana, do curso de Turismo da UFMG, o principal desafio para que a universidade se aproxime do paradigma do Bem Viver está na criação de políticas institucionais voltadas ao cuidado e à escuta dos sujeitos. Embora reconheça avanços promovidos pela UFMG nos últimos anos, como campanhas de combate ao racismo, ações voltadas à saúde mental e maior valorização da diversidade, ela avalia que muitas dessas iniciativas não chegam de forma efetiva às unidades acadêmicas. “Falta esse espaço de escuta dos sujeitos, para que cada unidade tenha maior acolhimento, maior pertencimento e maior cuidado”, afirma.
Segundo a docente, a lógica produtivista ainda predomina no ambiente universitário. A valorização de indicadores quantitativos, a cobrança por resultados e a padronização dos processos acabam reproduzindo um modelo distante das dimensões do Bem Viver, baseadas nas relações humanas, no cuidado e na construção coletiva. Para Fabiana, espaços de convivência surgem mais como formas de resistência do que como resultado de uma política institucional consolidada. “Hoje, a possibilidade dos bens viveres aqui acontece através das resistências”.
Essa percepção é compartilhada por Isaac. Para ele, a universidade ainda carece de um senso de comunidade mais amplo. As pessoas se organizam, mas muitas vezes de forma fragmentada, com “rixas por nada” que atrapalham objetivos comuns. O estudante também aponta a ausência de expressões culturais de comunidades tradicionais no cotidiano da UFMG. Ele conhece apenas o Horto do IGC como iniciativa nesse sentido, e mesmo assim o considera “largado”. A falta de outros estudantes quilombolas com quem possa compartilhar vivências e a sensação de não pertencimento revelam um vazio que práticas pontuais não conseguem preencher.
O choque cultural descrito por Isaac expõe uma distância que não é apenas geográfica, mas também simbólica. A universidade, ainda que abrigue iniciativas alinhadas ao Bem Viver, parece não ter conseguido integrar plenamente a cosmovisão de quem vem de comunidades onde essa filosofia é vivida no dia a dia. Para que o Bem Viver deixe de ser apenas um conceito e se torne uma prática institucional, é necessário não apenas manter os espaços de resistência, mas ampliá-los e reconhecer que o cuidado, o pertencimento e a escuta são tão essenciais quanto a produção acadêmica.
Na avaliação da professora, ampliar espaços de encontro, fortalecer o acolhimento e incorporar a diversidade de saberes e de sujeitos são passos fundamentais para que a universidade possa, de fato, se aproximar do Bem Viver.
* Reportagem produzida na disciplina "Laboratório de Produção de Reportagem", sob supervisão de Elton Antunes