Dossiê: Transporte

Conheça a Escola Bike Anjo, que ensina pessoas de todas as idades a andar de bicicleta.

 

Poderia ser um domingo como qualquer outro, não fossem as bicicletas no Parque Municipal de Belo Horizonte. Bicicleta ali? Era proibido, mas naquele domingo era diferente: era dia de escola. Há quem diga que professores são anjos e esses são mesmo, de nome e tudo. Só que ao invés de voar com asas, pedalam sobre rodas e ensinam a pedalar. Eles formam o Bike Anjo – coletivo que incentiva o uso da bicicleta em meios urbanos.

 

01 -No dia mundial sem carro

 

O que estava acontecendo ali no Parque era a EBA – Escola Bike Anjo. Os professores da EBA são ciclistas voluntários que ensinam a andar de bicicleta quem nunca pedalou.  A ideia é simples: quem quiser aprender a pedalar, é só aparecer, colocar seu nome na lista e esperar ser chamado. Não é preciso ter ou levar bicicleta, pois os próprios voluntários disponibilizam as suas para a escola. Cada atendimento dura cerca de 25 minutos, mas o aluno pode colocar o nome na lista de novo. A EBA acontece todo último domingo do mês na Praça Arnaldo Janssen (esquina da Avenida Carandaí com Avenida Brasil, no bairro Funcionários). Em ocasiões especiais a escola vai para outros locais da cidade, como o Parque Municipal e o Parque Ecológico da Pampulha.

Aquele domingo era uma dessas datas especiais. Em comemoração ao mês do Dia Mundial Sem Carro (22/09), a EBA aconteceu no Parque Municipal pela primeira vez. As bicicletas são proibidas no Parque, mas os organizadores conseguiram uma autorização para a EBA e logo elas foram aparecendo, dos mais diversos tipos, tamanhos e cores. Os alunos também chegavam, e vinham com um misto de animação e timidez. Dentre eles, chegou  Jefferson, meio tímido e acuado, mas foi logo se soltando. A vontade de andar de bicicleta vinha desde a infância e ele até tentou, com a bicicleta do irmão, que não gostou da ideia. Depois de ser repreendido, ele desistiu. Se fosse para aprender a andar, que fosse com a bicicleta de outro. E foi mesmo. Com a torcida da esposa, ele deu suas primeiras pedaladas. Ao final da aula, comemorou. Apesar do medo inicial, Jefferson saiu da aula fazendo planos e se sentindo livre. Para ele, andar de bicicleta deu “uma sensação boa de liberdade” e é isso que ele busca: liberdade de ir e vir, quando quiser e como quiser. Seu plano é continuar andando e trocar o transporte público pela bicicleta.

 

Desde 2012 em BH

 

02 - Gente de todas as idades

 

É justamente para propiciar experiências como a de Jefferson que o Bike Anjo foi criado em 2010, na cidade de São Paulo. A EBA é um dos projetos do grupo, que hoje já conta com mais de 300 voluntários em 60 cidades. O coletivo é formado por ciclistas experientes que ensinam iniciantes, elaboram rotas de bicicleta, dão dicas de segurança e de como se portar no trânsito, entre outras atividades. A visão do grupo é “gerar a consciência de coletividade e integração entre as pessoas no trânsito e com a cidade por meio da bicicleta”. São realizadas três frentes de trabalho: atendimentos individuais, passeios ciclísticos e oficinas educativas – as EBAs.  Para os atendimentos individuais, existe uma plataforma online em que qualquer pessoa pode solicitar um Bike Anjo. O sistema coloca então um ciclista voluntário em contato com o interessado, para que eles combinem o dia, local e detalhes do atendimento.

 

03 - Todo último

 

Em Belo Horizonte, o Bike Anjo existe desde fevereiro de 2012. Um dos iniciadores do projeto foi Guilherme Tampieri, que viu a ação do grupo em São Paulo e quis trazer para a capital mineira. Ele se inscreveu na plataforma virtual como voluntário e começou a realizar atendimentos. Logo descobriu que já existiam outros anjos em BH e, a partir daí, o grupo foi crescendo. O que começou como trabalho voluntário, transformou-se em amizade e hoje existe até uma Balada Bike Anjo, simultaneamente com outras cidades. Reunidos em bares, cada equipe Bike Anjo local se conecta ao Google Hangout – ferramenta online de conversa e transmissão ao vivo – e transmite a sua festa, criando uma balada integrada nacionalmente. Como todos os eventos Bike Anjo, quem não pedala também pode ir ao encontro, conhecer os ciclistas e tirar dúvidas. O grupo está sempre aberto a novos participantes – basta ter vontade de pedalar.

 

Aprendendo e ensinando

 

No começo de 2012, Amanda Corradi era uma dessas pessoas que tinha vontade, mas “não sabia andar nada, nem um tiquinho, não sabia nada, nada, de bicicleta”. Até que ganhou uma e decidiu fazer seu trabalho de conclusão do curso de arquitetura sobre mobilidade urbana e a bicicleta como meio de transporte. Mas a estudante achava um absurdo fazer um trabalho com esse tema e não saber pedalar (esse é, inclusive, um dos grandes problemas dos projetos urbanos: quem projeta para ciclistas não utiliza a bicicleta). Em maio de 2012, ela deu as primeiras pedaladas com a ajuda do namorado. Já em agosto, participou da primeira EBA de BH. Na época, ela ainda não dominava a bike e se orgulha de ter aprendido suas primeiras “curvinhas” na EBA.

Amanda não sabe definir quando parou de ser aluna e virou anjo: hoje ela participa da iniciativa como voluntária. Desde aquelas primeiras curvinhas, ela se formou na faculdade, fez grandes amigos no Bike Anjo e trouxe a bicicleta para sua vida. Além do Bike Anjo, ela também participa da BH em Ciclo (Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte) e do GT Pedala BH (grupo de discussão sobre a mobilidade por bicicletas em BH, com participação da BHTrans). Para Amanda, agora só falta perder o medo de fazer grandes deslocamentos de bicicleta. Moradora do bairro Glória, ela precisa percorrer um trajeto de 10 a 12km até o centro de BH e ainda não tem segurança para enfrentá-lo sozinha.

 

Trajetos mais seguros

 

04 - EBA também

 

O medo de enfrentar o caótico trânsito belorizontino é um dos maiores obstáculos para quem deseja adotar a bike como meio de transporte. E foi por esse motivo que Taís Sousa conheceu o Bike Anjo. O objetivo era ir para o trabalho de bicicleta, em um percurso relativamente tranqüilo da Avenida Augusto de Lima até a Avenida Getúlio Vargas. Porém, o que é tranqüilo para um carro ou ônibus não é fácil para o ciclista – alvo frágil no meio dos veículos motorizados. Assim, Taís pediu ajuda ao Bike Anjo para fazer o melhor trajeto, com dicas do uso de luzes, sinal de braço, etc. Atualmente, além de ter se tornado anjo, ela vai para o trabalho de bicicleta todos os dias e garante que chega mais bem disposta. Mas a vida de ciclista também tem seus riscos e Taís já levou três ‘fechadas’ perigosas no trânsito. Apesar dos sustos, não desanimou e acredita cada vez mais que pedalar na cidade é uma questão de superação: “você acaba tendo que dominar seus próprios medos e também tem que aprender a conviver com o motorista”.

Fugir do trânsito, ter mais qualidade de vida, superar medos, realizar desejos guardados desde a infância, fazer amigos…  Essas são apenas algumas conseqüências da bicicleta na vida das pessoas. E quem melhor do que anjos para transformar vidas e construir uma cidade melhor?

Veja aqui um atendimento do Bike Anjo e a emoção das primeiras pedaladas

Procure um anjo também: no Brasil ou em BH.

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Jéssica Malta

Passei uma tarde no evento do Bike Anjo e foi muito bacana ver a reação das pessoas ao andarem de bicicleta pela primeira vez. É incrível, a sensação de alegria parecia não ter limite de idade, todos se encantavam a cada pedalada, por mais difícil que ela fosse.

Kelly Cardoso

Ao ver aquelas pessoas aprendendo a pedalar, algumas com 7 anos de idade, outras com mais de 60, eu pensava em ter coragem e colocar meu próprio nome na lista. Afinal, eu também não sabia andar de bicicleta e queria muito ter aquela sensação que via nos rostos de cada aluno do Bike Anjo.