Iluminação Precária na UFMG Pampulha gera Insegurança para estudantes

Por Aline Assis e Flora Villela

O que você precisa para se sentir seguro em seus trajetos diários? Uma estudante da UFMG que frequenta o período noturno sai do prédio da EEFFTO, Escola Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, em direção à praça de serviços. Em sua caminhada de quase 20 minutos, ela passa por vias com trechos pouco iluminados, cercadas por uma mata densa, trânsito escasso de pessoas e prédios bastante espaçados.

#Acessibilidade: A foto apresenta um ambiente escuro entre a Faculdade de Música e a Avenida Mendes Pimentel, onde se encontra uma rua de paralelepípedos cercada por árvores em ambos os lados que projetam a sombra no chão deixando somente alguns espaços de iluminação no centro, ao fundo é possível observar a parte de trás de uma Van branca.
Caminho entre a Faculdade de Música e a Avenida Mendes Pimentel

#Acessibilidade: A foto apresenta um ambiente escuro entre a Faculdade de Música e a Avenida Mendes Pimentel, onde se encontra uma rua de paralelepípedos cercada por árvores em ambos os lados que projetam a sombra no chão deixando somente alguns espaços de iluminação no centro, ao fundo é possível observar a parte de trás de uma Van branca.

Neste mesmo horário, outro universitário sai do prédio da Faculdade de Música e precisa pegar uma condução até sua casa. Durante seu percurso, ele passa por um ponto de ônibus que está vazio e é mais próximo do prédio. Caso esperasse ali, talvez conseguisse ir sentado no ônibus interno, porém, prefere andar um pouco mais a frente até a parada na esquina da Escola de Belas Artes, onde há um fluxo maior de pessoas.

Algumas horas mais tarde, mais uma estudante, volta de um evento que aconteceu na FAE, Faculdade de Educação,e se dirige à estação do Move na Av. Antônio Carlos. Suas amigas foram embora mais cedo, o que fez com que ela tivesse que ir sozinha. Passando pela rua do Centro Pedagógico da Universidade e evitando caminhar nas calçadas, ela se pergunta: Como outras mulheres que estudam ali fazem esse percurso todos os dias? O que esses três relatos têm em comum é a falta de iluminação adequada, que atravessa as vivências dos estudantes no campus UFMG Pampulha.

A falta de iluminação nos pontos e vias do campus, sobretudo nas áreas cercadas de mata densa, onde, à noite acontece uma circulação menor de pessoas, vem causando insegurança aos estudantes da universidade que frequentam o local no período noturno. São rotineiras as reclamações a respeito, ainda que, em muitos casos essas questões acabam não vindo a público formalmente. 

No ano de 2019 a UFMG reformulou seu plano de iluminação, mas o problema persistiu com relação às longas áreas escuras. Em publicações ao longo do ano, a faculdade informou acerca de mudanças das lâmpadas convencionais para lâmpadas de LED, o que possibilitou um maior tempo entre as manutenções, uma vez que a duração dessas lâmpadas é de 5 anos. A matéria publicada no site da universidade ainda ressaltou a importante economia de energia em decorrência da troca das lâmpadas e que a seleção dos locais que as receberam aconteceu de acordo com levantamento das áreas de maior circulação de pessoas e das mais escuras no campus. No entanto, em 2023, as mesmas questões associadas à defasagem de luz no Campus, continuam afetando o cotidiano de quem precisa se deslocar por esse espaço, tanto a pé quanto através do transporte público interno.

Ponto de ônibus na Avenida Carlos Luz próximo a entrada da UFMG

#Acessibilidade: A foto apresenta um ponto de ônibus na Avenida Carlos Luz próximo a entrada da UFMG ao lado de uma avenida movimentada, ele está vazio e escuro. 

O transporte público interno, roda em diferentes linhas parando ao longo do campus e em seu entorno, porém em suas próprias rotas, ainda que em pontos muito frequentados, a iluminação se mostra bem deficitária. É o que afirma o estudante de Jornalismo, Lucas Santana: “No caminho que o interno faz, em todas as ruas que não tem prédio, basicamente não tem iluminação, em muitos casos os estudantes acabam por ficar sozinhos nos pontos depois das 23 horas.” Ele ainda complementa que: “a questão da iluminação é um dos vários problemas que a gente acaba enfrentando,o próprio prédio da Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas) é muito mal iluminado, embora seja um prédio fechado e seja um pouco menos problemático ele tem vários pontos e corredores, que não tem iluminação nenhuma, o que acaba por ser uma questão de segurança.”

Esse problema piora quando falamos da situação de alunos que vêm de fora. Gabriel Barcelos, estudante vindo de Cuiabá para cursar Jornalismo, relata que ao chegar em Belo Horizonte se sentiu muito inseguro na faculdade: “Eu acho que é uma baita negligência, sim. Não sou de BH, e nas primeiras semanas de aula eu só conseguia ficar pensando, meu Deus, que lugar escuro e assustador.” Ele se locomove pela Universidade acompanhado de seu amigo Lucas Sant’ana, que adiciona: “Às vezes você pode acabar deixando de vir ou deixando de fazer alguma coisa justamente porque essa questão da insegurança, é uma coisa que você vai se preocupar, é natural. Eu acho que principalmente para as pessoas que acabam de  chegar, assim, nos primeiros semestres de adaptação. E não se sentir pertencente é uma coisa que afasta o estudante”Eles fazem parte de seus trajetos diários juntos, como uma estratégia para diminuir o risco nos locais em que transitam.

Em um levantamento de dados feito através do Google Forms, foram obtidas 42 respostas dos estudantes, a partir de questões acerca da condição de iluminação, sensação de segurança e relatos de possíveis problemas. Ao serem questionados se a iluminação do campus era suficiente, 99,16% dos participantes responderam que “Não” , já quando perguntados sobre a sensação de segurança no campus à noite, 98,32% responderam que “Não se sentem seguros”. 

Quem é mais afetado por este problema ?

Essas respostas são influenciadas em grande parte por um recorte de gênero, no gráfico abaixo, é observado como a falta de iluminação no campus afeta principalmente o público feminino. Para construção do gráfico em questão foram cruzados os dados correspondentes a duas perguntas, “Com qual gênero(s) se identifica?” e “ Você se sente seguro ao transitar pela UFMG no período noturno?” gerando, assim, o seguinte cruzamento de dados:

#acessibilidadeO gráfico acima é um gráfico de barras horizontais que demonstra como a falta de iluminação no campus afeta os estudantes em um recorte de gênero. Na legenda o público feminino é representado pela cor azul escuro e o público masculino pela cor azul claro. Baseando-se em 42 respostas totais as primeiras duas barras horizontais indicam a resposta “sim, afeta” sendo a primeira barra 19 mulheres e a segunda 11 homens respectivamente, já as duas próximas barras horizontais indicam a resposta “não afeta” sendo a terceira barra 6 mulheres e a quarta barra 6 homens.

  É o que demonstra a fala da estudante de Biblioteconomia, Letícia Oliveira ao se referir a vivência de mulheres que, como ela, cursam no período noturno  “Eu acredito que principalmente as mulheres são afetadas, porque a gente vive constantemente com medo e esse breu acaba prejudicando mais ainda. Estamos sempre no escuro e você fala “caraca” e se aparecer um homem me levar pro meio do mato? Porque a gente tem uma mata aqui dentro.” Uma outra preocupação levantada por ela é a de que o escuro acaba por atrair pessoas com intenções criminosas.  “A questão da iluminação pesa mais ainda porque abre espaço para pessoas mal intencionadas, não só pessoas de dentro, uma pessoa de fora mal intencionada tem esse espaço atrativo.” A fala de Gabriel Barcelos, segue neste mesmo sentido: “Eu acho que a questão do gênero pega muito,porque eu acredito que a falta de iluminação é sugestiva para o agressor. Eu acho que em termos de segurança física, sexual e moral,  viver nesses ambientes escuros, nesse horário em que as pessoas têm um grau de insegurança e tensão no ar o tempo todo, acaba que estamos todos exaustos.”

Ponto de ônibus do prédio da Escola de Belas Artes.

#Acessibilidade A foto mostra uma calçada em um ponto de ônibus e parte de uma rua de noite, mais da metade está completamente escura encoberta pela sombra das árvores, a iluminação abrange só um pedaço da calçada, no canto da foto uma estudante de costas para a câmera espera pelo ônibus que vem ao longe com os faróis acesos.

O Assédio é um problema vivenciado por mulheres nas mais diversas condições e ambientes. É tipificado como crime a partir do o artigo 216-A do Código Penal, que caracteriza o assédio sexual como: “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual” e leva de 1 a 2 anos de dentenção. No caso do assédio moral embora não esteja enquadrado em uma lei específica é cabível de encaixe em diversas leis. 

Neste sentido, a pesquisa revelou que 100% dos participantes acreditam que “Sim” a falta de iluminação acentua e facilita os casos de assédio. Através das respostas do formulário, foram relatados casos sofridos pelos próprios participantes, tais como: “Já sofri assédio e me senti muito insegura na época, tanto com olhares, passos atrás de mim e falas estranhas.” outra pessoa conta ainda “já sofri com situações de assédio, com um homem me seguindo com o carro e me chamando uma vez, e outra vez indo em direção à saída da universidade um homem tentou segurou minha mão.” 

Outra pergunta apontou que a sensação geral é de que o escuro possibilita o aumento nos casos de assédio: “Com certeza, porque muitas pessoas não têm outra opção senão os trajetos escuros e mais vazios. Se algo acontecer é pouco provável alguém ver ou ouvir para conseguir ajudar” disse um participante. Um novo estudante pontua ainda que “Sim. Locais de difícil visualização são preferíveis para violências como assédio.” foi dito também que “Os locais que não apresentam iluminação na faculdade se tornam um ponto para cometer diversos tipos de violência. Tanto pela falta de iluminação que não torna o lugar visível e também pela falta de monitoramento. A falta de iluminação consequentemente interfere no monitoramento do campus.” 

Em sua entrevista a estudante Letícia Oliveira relata uma violência acontecida mais recentemente e que ganhou destaque: “Até o mês passado, num rolê que teve, né? Teve uma menina que foi abusada, isso repercutiu inteiro na mídia, como se fosse única e exclusivamente, culpa do rolê dentro da universidade, quando na verdade a menina estava de boa, e levaram ela pra um canto escuro. Então isso dá confiança pras pessoas que cometem esse tipo de crime, de saber que: “Ah, tá escuro, ninguém vai me ver”” ela reforça ainda que por terem pontos de escape a ação de pessoas mal intencionadas é facilitada.

Essas falas demonstram que a problemática afeta as vivências dentro da universidade, levando em consideração principalmente a maior chance das mulheres se tornarem vítimas. Até estudantes que manifestaram não se sentir inseguros, acreditam que dentro de recortes sociais, outros indivíduos podem ter essa preocupação, demonstrando uma sensação geral de insegurança. 

E quem cuida do estudante noturno?

Alunos esperam o ônibus no Ponto com a esquina do prédio da Escola de Belas Artes.

#Acessibilidade – A foto mostra um grupo de estudantes aguardando o ônibus no ponto que está localizado na esquina da Escola de Belas Artes, alguns estão sentados nos bando distribuídos no ponto e outros de pé na calçada, o ponto inteiro é sombreado por uma árvore e está sem iluminação, contando apenas com as luzes dos carros que passam na avenida Mendes Pimentel e com os postes distribuídos em uma rua paralela.

Outra faceta gritante da lacuna de infraestrutura de iluminação é o abandono do estudante noturno, uma vez que, dentre outros descasos, a falta de luz piora a vivência e convivência de estudantes que já  enfrentam outras dificuldades em se manterem em seus cursos. É o que compreende a fala de Lucas Santana: “A questão da iluminação é um de vários problemas da universidade e é uma coisa preocupante porque a gente sabe que a UFMG tem uma estrutura muito grande, tem um investimento muito grande e é uma coisa muito básica, assim, que é meio assustador não ser uma prioridade da reitoria.” Salienta ele. 

Neste mesmo sentido, o aluno de farmácia Alisson acrescenta: “Considerando o porte da UFMG hoje, e que é a maior e melhor faculdade federal do Brasil, eu acho que ela tem verba e recursos suficientes para melhorar esse quesito. A segurança dos universitários é algo primordial, eu não vejo desculpas para não ter essas melhorias, considerando isso que eu já falei, o seu tamanho, a sua visibilidade, não acho que é um problema de falta de verba, eu acho que é um problema mesmo de má administração dos recursos que a faculdade recebe.” Conclui.

A precarização crescente do ensino noturno ao longo dos últimos anos tem sido motivo de preocupação constante para muitos estudantes,ao longo das entrevistas desta matéria essa inquietação surgiu em diversos relatos. Em geral, os estudantes que frequentam a faculdade neste período trabalham durante o dia e, em muitos casos, por não terem ajuda externa, dependem de sua renda para se manterem na cidade e estudando. Nesse aspecto, a precarização afeta diretamente estudantes mais vulnerabilizados, e a diferenciação entre as experiências dos estudantes do turno diurno para o noturno aparece nas falas dos entrevistados. Como exemplifica a colocação de Lucas Sant’Ana “Eu faço algumas aulas aqui de manhã e dá para ver que o pessoal da manhã tem uma vivência da universidade completamente diferente que no noturno, que não temos acesso justamente por não nos sentirmos seguros” ele segue explicando como a vivência  no noturno, dentro da UFMG é precarizada: “O simples fato de ser um estudante do noturno vem com várias problemáticas a mais. Eu sinto falta da UFMG ter um pouco mais de cuidado, só que é isso, a gente sabe que os cursos do noturno são sucateados, já tem alguns que estão correndo risco até de fechar, então a gente não sente um amparo necessário em várias questões.”

A falta de investimento em infraestrutura, e a relação da universidade com os alunos do noturno, enfatiza a negligência que, de acordo com os próprios discentes, reflete um projeto de precarização.  É o que pontua Letícia Oliveira:  “A precarização do noturno é um projeto, né? É um projeto de que a universidade já pouco se importa com aluno que estuda no noturno. Tipo, professor já não tem, os prédios, principalmente os que têm muitos cursos noturnos, têm uma estrutura não muito boa. Então, a partir desse ponto que você vê que a melhor universidade da América Latina e do Brasil não tem sequer a preocupação de iluminar o ambiente que os alunos estão, imagina o quão preocupada está com os alunos do noturno?” Destaca ela.

Outras omissões na infraestrutura do campus também foram apontadas “Um ponto que eu pelo menos tenho muita dificuldade é em visualizar a pavimentação da universidade. Na hora que eu estou andando pela universidade, e pode oferecer risco, não só pra mim, mas já vi várias pessoas tropeçando e correm vários riscos nesse sentido de queda e também a questão de oferecer segurança.” Evidencia Vinicius Eduard, discente do curso de Farmácia.

A iluminação deficiente não apenas prejudica a segurança física, mas também contribui para a sobreposição de dificuldades no acesso ao ensino noturno, escrachando não só um descaso com os estudantes, mas também com funcionários que transitam e trabalham pelo campus neste mesmo horário. Além da falta de luz, a negligência com a infraestrutura noturna e a precarização do ensino nesta modalidade são preocupações reais. Estudantes, muitos conciliando trabalho e estudo noturno, enfrentam não apenas áreas mal iluminadas, mas um ambiente que parece ignorar suas necessidades.

Estacionamento do CAD 2 atrás da FALE

#Acessibilidade: A foto apresenta um ambiente de estacionamento escuro no CAD 2, há somente uma lâmpada no fundo e a esquerda algumas árvores e muitos carros de diversas cores estacionados.

O que a universidade tem a dizer?

A segurança dos cursos noturnos já era uma questão  em 2017 quando, a partir de relatos de criminalidade dentro do campus, a faculdade em nota afirmou: “A segurança nos espaços da UFMG é uma pauta prioritária. A Reitoria informa que, em razão dos últimos episódios de violência registrados em agosto no campus Pampulha, medidas foram colocadas em prática, entre elas a intensificação das rondas motorizadas da equipe responsável pela segurança universitária, realização de vigilância nos ônibus de circulação interna, melhoramentos no sistema de iluminação das áreas de circulação e ampliação da cobertura de câmeras.”  Além disso, em seus registros consta que, no mesmo ano, contava com 275 vigilantes e mais de 1360 câmeras ativas. 

Anteriormente, na Resolução  n° 08/2009, de 16 de Junho de 2009, acerca do uso e ocupação do solo da UFMG campus pampulha foi estipulado que: “As diretrizes de uso e ocupação do território devem ser estabelecidas de modo a assegurar a qualidade de vida no Campus, o conforto ambiental das edificações e dos espaços exteriores, a preservação de áreas de interesse ecológico e o equilíbrio na distribuição espacial de áreas verdes, áreas de lazer e das áreas de convivência;” Ademais, a mesma resolução prevê: “O espaço intersticial das edificações, as calçadas e as áreas verdes devem ser paisagisticamente tratados, de modo a estimular os deslocamentos de pedestres”. Apesar disto, neste retrato da UFMG Pampulha, a questão da iluminação aparece como uma sombra persistente. O relato de estudantes desnuda uma realidade onde a falta de luz não é apenas um problema de visibilidade, mas um fator crucial na equação da segurança noturna.

Ao formular essa matéria tentamos contato em busca de dados mais recentes, invocando a política do acesso à informação, prevista na Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 201, diretamente a partir do mecanismo de consulta de dados presente no sistema gov.br, vinculado ao Sistema de informação ao cidadão (SIC),  tanto acerca da falta de iluminação, quanto ligados a possíveis denúncias de violências sofridas, infelizmente o tempo resposta não foi compatível com o prazo da matéria. As denúncias ou reclamações são possíveis através dos telefones disponíveis no seguinte link Ouvidoria – Diretoria de Governança Informacional (ufmg.br) 

Esses caminhos mal iluminados, pontos de ônibus na penumbra, e a sensação de vulnerabilidade desenham todos os dias, os trajetos noturnos desses estudantes. Os números da pesquisa revelam um descontentamento generalizado, apontando para a insuficiência da iluminação e a sensação predominante de insegurança. É uma narrativa compartilhada, que se intensifica nos relatos sobre assédio, sublinhando como a escuridão se torna aliada da vulnerabilidade.

Transformar essa escuridão noturna em luz, garante não apenas visibilidade física, mas uma atmosfera de segurança e inclusão para todos. Que este seja um chamado à ação, para que cada estudante, independentemente do turno, possa percorrer o campus da UFMG com confiança e tranquilidade.