De largada, imaginar um mundo sem prisões não é tarefa fácil. Essa forma penal está tão arraigada em nossa sociabilidade que se apresenta como uma invariável histórica — parece que sempre foi assim e sempre será. Ao mesmo tempo, não falamos sobre prisão. Como cantado pelos Racionais MC’s na já clássica “Diário de um detento”: “Cadeia guarda o que o sistema não quis. Esconde o que a novela não diz…”. Por isso, o nosso chamado às leitoras e leitores desse dossiê parte de um convite a romper com o silêncio sobre as prisões e adentrar (ou ao menos tentar) esses espaços feitos para não existir.
Sendo o jornalismo uma das mediações fundamentais para a conformação das formas que lemos e participamos do mundo, seus discursos e práticas parecem cruciais para essa sensação de uma prisão eterna e, por que não, para deseternizá-la. Mas como a prisão – que é pena e também lugar – aparece (ou desaparece) na cobertura da imprensa?
Essa é a questão que mobilizou a disciplina de laboratório “Jornalismo e Intersecções Letais: Raça, Gênero e Cárcere”, ofertada no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no segundo semestre de 2025 e que gerou esse dossiê com quatro reportagens especiais produzidas por estudantes da instituição:
- A ressocialização entre a penitência e a penitenciária
- “Tem que querer”: os desafios para acessar a Apac Feminina de Belo Horizonte
- “Eu não quero que o meu filho nasça preso”: a infância atravessada pelo cárcere em Minas Gerais
- Podcast Porta Giratória: vivências transfemininas no cárcere
Durante a disciplina, realizada no segundo semestre de 2025, pudemos discutir e perceber as aparições e desaparecimentos das prisões em Minas Gerais e no Brasil. De maneira geral, a prisão costuma ser apresentada como um fim em si mesmo e também como gesto de conclusão narrativa que exime o jornalismo de procurar saber o que vem depois — “o homem foi preso em flagrante e levado à delegacia”. Uma espécie de final feliz para que a sociedade possa dormir tranquila.
Mas o que vem depois? O cumprimento da pena e o espaço da prisão acabam sendo tema para casos de “crimes de colarinho branco”, em que se discute julgamentos, condições do cárcere e até a tal “dosimetria”. Outro momento que essa prisão aparece é em situações que extrapolam limites do absurdo, como a morte de cinco pessoas em prisões da Região Metropolitana de Belo Horizonte, entre fevereiro e março deste ano.
É de conhecimento geral que as condições de vida na prisão não são condizentes com sua suposta função de ressocialização. Inclusive, em 2023 o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu o “estado de coisas inconstitucional” do sistema carcerário brasileiro, que culminou na promoção do chamado Pena Justa, um plano nacional que promete “transformar o sistema penal brasileiro e o estado de calamidades sobre a prisão”. Durante a escrita das reportagens e a produção do podcast que compõem esse dossiê, o plano estava sendo discutido nos estados do Brasil. Assim, essa temática também perpassa muitas das produções aqui encontradas.

Contudo, novamente o que marcou em Minas Gerais a construção do “Pena Justa” foi o silêncio. Aqueles e aquelas mais afetadas pelas torturas, situações de fome extrema e violências mais diversas nomeadas pelo STF em seu diagnóstico, que são as pessoas apenadas e suas familiares, não foram ouvidas na elaboração das metas para a mudança do sistema penal. Ao acompanharmos ativistas e noticiários ao longo da discussão do plano, esse “esconder” perene que envolve as prisões tornou-se evidente. Enquanto o tema era debatido com furor pelos movimentos abolicionistas penais na capital mineira, nos jornais da TV e do Rádio, nos impressos e portais de notícia, apareceram quatro ou cinco menções em meses.
Juliana Borges, autora da obra “Encarceramento em Massa” (2019), que recupera a história do hiperencarceramento brasileiro e a relação que esse tem com o controle dos corpos dissidentes, em especial das pessoas negras, lançou em 2020 o livro “Prisão Espelho de Nós”. Nessa segunda obra, Borges nos convoca a romper esses silêncios e falar sobre as prisões porque o discurso personifica emoções e garante a existência dessas pessoas levadas para deixar de existir.
A autora nos convoca: “precisamos interromper a ideia de que as prisões não são sobre nós, porque são”. A violência cotidiana que nos atinge, a impunidade de grupos específicos de pessoas, os gastos exagerados com segurança pública prejudicando o desenvolvimento de saúde e educação para todos… Tudo isso é sobre nós e, por mais que queiramos esconder e esquecer, também envolve as prisões.
Mas a percepção que as prisões são espelho do que a sociedade tem do lado de fora dos muros nos acessou também em outro lugar. Ao chegarmos à sala de aula e nos propormos a falar sobre raça, gênero, cárcere e jornalismo, pudemos presenciar como as prisões realmente são sobre nós. Em depoimentos, partilhas e reflexões, estudantes contavam como a prisão e pessoas encarceradas estavam em seus bairros, seu cotidiano, suas famílias ou de amigas, amigos e amigues próximos. Ou como a ideia de poder ser presa ou preso as afeta de algum modo pelas corpas e corpos que carregavam sendo jovens, mulheres, negras ou não, transsexuais e não-binárias.
Rompendo silêncios e expondo as prisões, a matéria que abre o dossiê lança um olhar sobre as possibilidades e interdições que envolvem a fé e as práticas religiosas dentro das prisões. Em A ressocialização entre a penitência e a penitenciária, as repórteres Júlia Rhaine, Ana Maria Elisiário, Ana Júlia Corrêa e Isabella Neres abordam o complexo papel da religião em um contexto de exclusão e violações sob a tutela do Estado.
E onde a situação parece menos pior? Alice Pimenta, Aline Assis e Flora Villela nos convocam a refletir sobre a menina dos olhos do sistema penal mineiro, a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados. Em uma narrativa preocupada com os detalhes do percurso, a reportagem “Tem que querer”: os desafios para acessar a Apac Feminina de Belo Horizonte parte da pergunta “como funcionam os processos de ressocialização de mulheres encarceradas?” e termina dentro dos muros e contradições da instituição.
Outro orgulho penal do estado é o Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade, a única unidade prisional exclusiva para pessoas grávidas, mães e bebês. Mas há uma prisão possível para esses públicos? “Eu não quero que o meu filho nasça preso”: a infância atravessada pelo cárcere em Minas Gerais traz à tona esse debate. Erick de Abreu, Maria Júlia Rodrigues, Matina Moreira, Queren Hapuque, Yasmim Mogesis circundam os muros e as histórias do Centro para a reportagem especial.
E por fim, o podcast “PORTA GIRATÓRIA: as pessoas transfeminas e o cárcere” traz para as ondas sonoras uma questão que também está presente em todas as matérias do dossiê: “podemos falar em ressocialização para corpos e corpas que nem chegaram a ser integrados a sociedade?”. No podcast, João Pedro Ribeiro, Leticia Housen, Natalia Pereira e Nicolas Pereira reconstroem a realidade das mulheres transsexuais que são criminalizadas desde sua existência e contam as histórias que perpassam o dentro e o fora do muro da Penitenciária Professor Jason Soares Albergaria, unidade destinada a custodiar pessoas LGBTQIA+.
Boa escuta e boa leitura a todes!